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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O processo de canonização

O processo de canonização compõe-se de três fases distintas. A primeira fase é a fase diocesano, porque é realizada na própria Diocese onde a pessoa viveu ou morreu.

Canonização de Sta.
Maria Goretti, tida
como uma das mais
emocionantes da
história
O bispo diocesano, de livre vontade ou pelo pedido dos fiéis, deve iniciar a investigação sobre a vida, as virtudes, o martírio e a fama de santidade da pessoa em questão. Após instaurar esse processo, a pessoa é declarada Serva de Deus, mas o seu culto e devoção públicos são ainda proibidos. Deve nomear para isso um postulador, o qual deve investigar com bastante profundidade e cuidado a vida da pessoa e os motivos pelos quais tal personagem poderia vir a ser declarado santo para toda a Igreja. Deve também analisar com zelo, auxiliado se necessário por uma equipe de teólogos, os escritos de sua autoria, incluindo cartas ou outros inéditos e fora do conhecimento comum, verificando a conformidade com a fé e a moral católicas. Devem ser ouvidas também testemunhas (se ainda as houver), e proceder uma investigação separada sobre os possíveis milagres. Terminadas as investigações, o bispo deve encaminhar duas cópias dos processos, os escritos e a opinião dos teólogos à Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano.

A segunda fase é chamada fase romana, pois se dá em Roma, e pode culminar com a beatificação. a responsabilidade é agora da Congregação para a Causa dos Santos. Presidida pelo Presidente, auxiliado por um secretário, auxiliado pelos subsecretários, estes verificam se a investigação procedida na  Diocese foi realizada segundo as normas da Igreja, e, em caso positivo, encaminham o processo do Servo de Deus a um Colégio de Relatores, os quais estudam o processo em questão, segundo as circunstâncias teológicas, históricas e outras, e preparam um documento, chamado Positio, sobre as virtudes e o martírio.

Após elaborada a Positio, essa é apresentada a peritos, os quais examinam sua precisão histórica e científica, após o que é apresentada a uma comissão de teólogos, encarregados de examiná-la com profundidade.

Enquanto isso, os milagres realizados após a morte do Servo de Deus e atribuídos a sua intercessão são examinados por outra equipe de peritos (incluindo médicos, em caso de curas), a qual se encarrega de elaborar uma minuciosa relação sobre os mesmos. Depois, são discutidos por uma comissão de teólogos e na Congregação dos Cardeais e Bispos.

Canonização de frei Galvão, em
São Paulo
Tanto a Positio quanto a relação sobre os milagres são apresentadas à Congregação dos Cardeais e Bispos, os quais deliberam sobre o processo. Caso o considerem válido e realmente claro as virtudes ou o martírio e os milagres atribuídos ao Servo de Deus, os Cardeais apresentam a causa ao Santo Padre, a quem compete o culto público. Após o reconhecimento da vivência heróica das virtudes ou da constatação de martírio, é marcada a cerimônia de beatificação, a ser celebrada pelo próprio Papa ou por um cardeal para isso delegado. O servo de Deus passa a se chamar, então, Bem-aventurado ou Beato.

A fase diocesana de uma canonização só pode ser iniciada cinco anos após a morte da pessoa em questão, salvo a dispensa do Papa, como ocorreu com João Paulo II. A beatificação não obriga a todos os fiéis aceitarem o culto a um determinado santo, mas o restringe a uma determinada Diocese ou região. O processo de canonização, que seria a terceira parte, é bastante semelhante à segunda parte, mas obriga em força de fé a acreditar que tal pessoa se encontra no céu e a cerimônia é presidida normalmente pelo Papa. Após a canonização, o beato é declarado santo e seu culto adquire caráter universal.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Como é o processo de canonização?

A seguir, coloco um trecho da Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister, do papa João Paulo II. Nela se explica todo o processo de canonização.


I
DAS INVESTIGAÇÕES A REALIZAR PELO BISPO
1) Aos Bispos diocesanos ou às autoridades eclesiásticas que a eles são equiparadas pelo Direito, no âmbito da própria jurisdição, seja em virtude do próprio ofício, seja por instância dos fiéis, individualmente, em legítimas associações ou por meio dos seus representantes, compete o direito de investigar sobre a vida, as virtudes, o martírio e a fama de santidade ou de martírio, sobre os possíveis milagres e, eventualmente, sobre o culto antigo de um servo de Deus, para o qual se pede a canonização.
2) Em tal investigação o Bispo proceda segundo as Normas peculiares emanadas pela Congregação das Causas dos Santos, e com a seguinte ordem:
1º Peça ao Postulador da Causa, legitimamente nomeado pelo Autor, uma cuidada informação sobre a vida do Servo de Deus, e faça-se informar acuradamente por ele acerca dos motivos que parecem favorecer a promoção da causa.
2º No caso de o Servo de Deus ter publicado escritos da sua autoria, o Bispo cuide que sejam examinados por censores teólogos.
3º Se nos mesmos escritos nada for encontrado contra a fé e os bons costumes, o Bispo disponha que pessoas idôneas procurem outros escritos inéditos (cartas, diários, etc.), assim como todos os documentos que de qualquer modo dizem respeito à causa. Aquelas, depois de terem cumprido fielmente a sua tarefa, redijam uma relação sobre as investigações realizadas.
4º Se com base em tais resultados o Bispo retiver prudentemente que se possa ir além, cuide que as testemunhas apresentadas sejam interrogadas pelo Postulador e por outros que devem ser chamados ex officio.
No entanto, para que não se percam as provas, se for urgente o exame das testemunhas, sejam estas interrogadas ainda que a recolha dos documentos não tenha sido completada.
5º A investigação sobre presumíveis milagres faça-se separadamente da investigação sobre as virtudes ou sobre o martírio.
6º Terminadas as investigações, sejam todos os autos enviados em duas cópias à Congregação para as Causas dos Santos, bem como uma cópia dos livros do Servo de Deus examinados pelos censores teólogos, juntamente com o respectivo juízo.
O Bispo, além disso, anexe uma declaração acerca da observância do decreto de Urbano VIII sobre a ausência de culto.
II
FASE ROMANA
JUNTO DA CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS
3) É múnus da Congregação para as Causas dos Santos, presidida pelo Cardeal Prefeito, ajudado pelo Secretário, tratar de tudo o que se relaciona com a canonização dos Servos de Deus, seja assistindo os Bispos na instrução das causas, aconselhando e instruindo, seja estudando as mesmas com profundidade, seja emanando os votos sobre elas. À mesma Congregação cabe ainda decidir acerca de tudo quanto se refere à autenticidade e à conservação das relíquias.
4) É missão do Secretário:
1º Cuidar das relações com o exterior, principalmente com os Bispos que instruem as causas;
2º Participar nas discussões em torno do mérito das causas, emitindo o seu voto na Congregação dos Padres Cardeais e Bispos;
3º Redigir a relação sobre os votos dos Cardeais e Bispos, a ser entregue ao Sumo Pontífice;
5) No cumprimento da sua missão, o Secretário é coadjuvado pelo Subsecretário, a quem compete principalmente examinar se foram cumpridas as prescrições da lei na instrução das causas. O Secretário é também coadjuvado por um número adequado de oficiais menores.
6) Para o estudo das causas existe junto da Congregação o Colégio dos Relatores, presidido pelo Relator Geral.
7) A cada um dos Relatores compete:
1º Estudar, juntamente com os colaboradores externos, as causas que lhes foram encomendadas e preparar a Positio sobre as virtudes ou sobre o martírio;
2º Preparar por escrito as clarificações históricas, se eventualmente foram pedidas pelos Consultores;
3º Participar como perito no Congresso dos Teólogos, ainda que sem direito a voto;
8) Entre os Relatores existirá um especialmente encarregado do estudo das Positio sobre os milagres, que participa na Consulta dos Médicos e no Congresso dos Teólogos.
9) O Relator Geral, que preside ao Grupo dos Consultores de História, será ajudado por alguns ajudantes de estúdio.
10) Na Congregação para as Causas dos Santos existe um Promotor da Fé ou Prelado teólogo, a quem compete:
1º Presidir ao Congresso dos Teólogos, onde se efectua a votação;
2º Preparar a relação sobre o mesmo Congresso;
3º Participar como perito, mas sem voto, na Congregação dos Padres Cardeais e Bispos.
Em caso de necessidade, para uma ou outra causa, o Cardeal Prefeito poderá nomear um Promotor da fé “ad casum”.
11) Para tratar das causas dos Santos há também Consultores de diversas regiões, peritos em história ou em teologia, especialmente em teologia espiritual.
12) Para o exame das curas que são propostas como milagres, existe junto da Congregação um Colégio de peritos na ciência médica.
III
MODO DE PROCEDER NA CONGREGAÇÃO
13) Depois do Bispo ter enviado para Roma todos os autos e documentos que dizem respeito à causa, proceda-se do seguinte modo na Congregação para as Causas dos Santos:
1º Antes de mais, o Subsecretário verificará se na investigação realizada pelo Bispo foi observado tudo quanto se encontra estabelecido pela lei, após o que apresentará no Congresso ordinário um relatório sobre o êxito deste exame.
2º Se o Congresso julgar que a causa foi instruída segundo a lei, estabelecerá a qual dos relatores se deve confiar a mesma; por sua vez, o Relator, ajudado por um colaborador externo, preparará a Positio sobre as virtudes ou sobre o martírio, segundo as regras da crítica que devem ser observadas na hagiografia.
3º Nas causas antigas e naquelas mais recentes, quando assim for requerido, dada a sua índole particular e a juízo do Relator geral, a Positio publicada será submetida ao exame de consultores particularmente peritos na matéria para que estes votem sobre o seu valor científico, bem como sobre a sua suficiência acerca do seu objecto.
Em casos particulares, a Congregação pode entregar a Positio para que seja estudada por outros peritos não incluídos no elenco dos consultores.
4º A Positio (juntamente com os votos escritos dos consultores históricos e com as novas clarificações do Relator, se estas forem necessárias) será entregue aos Consultores teólogos, que votarão sobre o mérito da causa. Estes, juntamente com o Promotor da Fé, estudarão a Positio de tal forma que, antes de a mesma passar ao Congresso especial, as diversas questões sejam examinadas em profundidade.
5º Os votos definitivos dos consultores teólogos, juntamente com as conclusões redigidas pelo Promotor da Fé, serão submetidas ao juízo dos Cardeais e Bispos.
14) Acerca dos supostos milagres, a Congregação procederá do seguinte modo:
1º Os presumíveis milagres, sobre os quais o Relator encarregado para o efeito prepara uma Positio, são examinados na reunião de peritos (no caso de curas, na reunião de médicos), cujos votos e conclusões serão expressos detalhadamente numa minuciosa relação.
2º Posteriormente, os milagres são discutidos num Congresso especial de teólogos e, por fim, na Congregação dos Padres Cardeais e Bispos.
15) As opiniões dos Padres Cardeais e Bispos são comunicadas ao Santo Padre, a quem compete exclusivamente o direito de decretar o culto público eclesiástico que se pode tributar aos Servos de Deus.
16) Para cada uma das causas de canonização cujo juízo esteja atualmente pendente na Congregação para as Causas dos Santos, esta mesma Congregação, mediante um decreto especial, fixará a forma de proceder no futuro, observando, não obstante, o critério da nova lei.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Homilia do Papa Bento XVI na canonização de Frei Galvão

VIAGEM APOSTÓLICA
DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AO BRASIL POR OCASIÃO DA V CONFERÊNCIA GERAL
 DO EPISCOPADO DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE
SANTA MISSA E CANONIZAÇÃO
DE FREI ANTÔNIO DE SANT'ANNA GALVÃO, OFM
HOMILIA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
Aeroporto "Campo de Marte", São Paulo
Sexta-feira, 11 de Maio de 2007
Senhores Cardeais
Senhor Arcebispo de São Paulo
e Bispos do Brasil e da América Latina
Distintas autoridades
Irmãs e Irmãos em Cristo,
«Bendirei continuamente ao Senhor / seu louvor não deixará meus lábios» [Sl 33,2]
1. Alegremos-nos no Senhor, neste dia em que contemplamos outra das maravilhas de Deus que, por sua admirável providência, nos permite saborear um vestígio da sua presença, neste ato de entrega de Amor representado no Santo Sacrifício do Altar.
Sim, não deixemos de louvar ao nosso Deus. Louvemos todos nós, povos do Brasil e da América, cantemos ao Senhor as suas maravilhas, porque fez em nós grandes coisas. Hoje, a Divina sabedoria permite que nos encontremos ao redor do seu altar em ato de louvor e de agradecimento por nos ter concedido a graça da Canonização do Frei Antônio de Sant’Ana Galvão.
Quero agradecer as carinhosas palavras do Arcebispo de São Paulo, D. Odilo Scherer, que foi a voz de todos vós, e a atenção do seu predecessor, o Cardeal Cláudio Hummes, que com tanto esmero empenhou-se pela causa do Frei Galvão. Agradeço a presença de cada um e de cada uma, quer sejam moradores desta grande cidade ou vindos de outras cidades e nações. Alegro-me que através dos meios de comunicação, minhas palavras e as expressões do meu afeto possam entrar em cada casa e em cada coração. Tenham certeza: o Papa vos ama, e vos ama porque Jesus Cristo vos ama.
Nesta solene celebração eucarística foi proclamado o Evangelho no qual Cristo, em atitude de grande enlevo, proclama: «Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos» (Mt 11,25). Por isso, sinto-me feliz porque a elevação do Frei Galvão aos altares ficará para sempre emoldurada na liturgia que hoje a Igreja nos oferece.
Saúdo com afeto, a toda a comunidade franciscana e, de modo especial as monjas concepcionistas que, do Mosteiro da Luz, da Capital paulista, irradiam a espiritualidade e o carisma do primeiro brasileiro elevado à glória dos altares.
2. Demos graças a Deus pelos contínuos benefícios alcançados pelo poderoso influxo evangelizador que o Espírito Santo imprimiu em tantas almas através do Frei Galvão. O carisma franciscano, evangelicamente vivido, produziu frutos significativos através do seu testemunho de fervoroso adorador da Eucaristia, de prudente e sábio orientador das almas que o procuravam e de grande devoto da Imaculada Conceição de Maria, de quem ele se considerava ‘filho e perpétuo escravo’.
Deus vem ao nosso encontro, "procura conquistar-nos - até à Última Ceia, até ao Coração trespassado na cruz, até as aparições e as grandes obras pelas quais Ele, através da ação dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente" (Carta encl. Deus caritas est, 17). Ele se revela através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente da Eucaristia. Por isso, a vida da Igreja é essencialmente eucarística. O Senhor, na sua amorosa providência deixou-nos um sinal visível da sua presença.
Quando contemplarmos na Santa Missa o Senhor, levantado no alto pelo sacerdote, depois da Consagração do pão e do vinho, ou o adorarmos com devoção exposto no Ostensório renovemos com profunda humildade nossa fé, como fazia Frei Galvão em "laus perennis", em atitude constante de adoração. Na Sagrada Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, ou seja, o mesmo Cristo, nossa Páscoa, o Pão vivo que desceu do Céu vivificado pelo Espírito Santo e vivificante porque dá Vida aos homens. Esta misteriosa e inefável manifestação do amor de Deus pela humanidade ocupa um lugar privilegiado no coração dos cristãos. Eles devem poder conhecer a fé da Igreja, através dos seus ministros ordenados, pela exemplaridade com que estes cumprem os ritos prescritos que estão sempre a indicar na liturgia eucarística o cerne de toda obra de evangelização. Por sua vez, os fiéis devem procurar receber e reverenciar o Santíssimo Sacramento com piedade e devoção, querendo acolher ao Senhor Jesus com fé e sempre, quando necessário, sabendo recorrer ao Sacramento da reconciliação para purificar a alma de todo pecado grave.
3. Significativo é o exemplo do Frei Galvão pela sua disponibilidade para servir o povo sempre quando era solicitado. Conselheiro de fama, pacificador das almas e das famílias, dispensador da caridade especialmente dos pobres e dos enfermos. Muito procurado para as confissões, pois era zeloso, sábio e prudente. Uma característica de quem ama de verdade é não querer que o Amado seja ofendido, por isso a conversão dos pecadores era a grande paixão do nosso Santo. A Irmã Helena Maria, que foi a primeira "recolhida" destinada a dar início ao "Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição", testemunhou aquilo que Frei Galvão disse: "Rezai para que Deus Nosso Senhor levante os pecadores com o seu potente braço do abismo miserável das culpas em que se encontram". Possa essa delicada advertência servir-nos de estímulo para reconhecer na misericórdia divina o caminho para a reconciliação com Deus e com o próximo e para a paz das nossas consciências.
4. Unidos em comunhão suprema com o Senhor na Eucaristia e reconciliados com Deus e com o nosso próximo, seremos portadores daquela paz que o mundo não pode dar. Poderão os homens e as mulheres deste mundo encontrar a paz se não se conscientizarem acerca da necessidade de se reconciliarem com Deus, com o próximo e consigo mesmos? De elevado significado foi, neste sentido, aquilo que a Câmara do Senado de São Paulo escreveu ao Ministro Provincial dos Franciscanos no final do século XVIII, definindo Frei Galvão como "homem de paz e de caridade". Que nos pede o Senhor?: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amo». Mas logo a seguir acrescenta: que «deis fruto e o vosso fruto permaneça» (cf. Jo 15, 12.16). E que fruto nos pede Ele, senão que saibamos amar, inspirando-nos no exemplo do Santo de Guaratinguetá?
A fama da sua imensa caridade não tinha limites. Pessoas de toda a geografia nacional iam ver Frei Galvão que a todos acolhia paternalmente. Eram pobres, doentes no corpo e no espírito que lhe imploravam ajuda.
Jesus abre o seu coração e nos revela o fulcro de toda a sua mensagem redentora: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos» (ib.v.13). Ele mesmo amou até entregar sua vida por nós sobre a Cruz. Também a ação da Igreja e dos cristãos na sociedade deve possuir esta mesma inspiração. As pastorais sociais se forem orientadas para o bem dos pobres e dos enfermos, levam em si mesmas este sigilo divino. O Senhor conta conosco e nos chama amigos, pois só aos que se ama desta maneira, se é capaz de dar a vida proporcionada por Jesus com sua graça.
Como sabemos a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano terá como tema básico: "Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida". Como não ver então a necessidade de acudir com renovado ardor à chamada, a fim de responder generosamente aos desafios que a Igreja no Brasil e na América Latina está chamada a enfrentar?
5. «Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei», diz o Senhor no Evangelho, (Mt 11,28). Esta é a recomendação final que o Senhor nos dirige. Como não ver aqui este sentimento paterno e, ao mesmo tempo materno, de Deus por todos os seus filhos? Maria, a Mãe de Deus e Mãe nossa, se encontra particularmente ligada a nós neste momento. Frei Galvão, assumiu com voz profética a verdade da Imaculada Conceição. Ela, a Tota Pulchra, a Virgem Puríssima, que concebeu em seu seio o Redentor dos homens e foi preservada de toda mancha original, quer ser o sigilo definitivo do nosso encontro com Deus, nosso Salvador. Não há fruto da graça na história da salvação que não tenha como instrumento necessário a mediação de Nossa Senhora.
De fato, este nosso Santo entregou-se de modo irrevocável à Mãe de Jesus desde a sua juventude, querendo pertencer-lhe para sempre e escolhendo a Virgem Maria como Mãe e Protetora das suas filhas espirituais.
Queridos amigos e amigas, que belo exemplo a seguir deixou-nos Frei Galvão! Como soam atuais para nós, que vivemos numa época tão cheia de hedonismo, as palavras que aparecem na Cédula de consagração da sua castidade: "tirai-me antes a vida que ofender o vosso bendito Filho, meu Senhor". São palavras fortes, de uma alma apaixonada, que deveriam fazer parte da vida normal de cada cristão, seja ele consagrado ou não, e que despertam desejos de fidelidade a Deus dentro ou fora do matrimônio. O mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples que rejeitem ser consideradas criaturas objeto de prazer. É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento.
É neste momento que teremos em Nossa Senhora a melhor defesa contra os males que afligem a vida moderna; a devoção mariana é garantia certa de proteção maternal e de amparo na hora da tentação. Não será esta misteriosa presença da Virgem Puríssima, quando invocarmos proteção e auxílio à Senhora Aparecida? Vamos depositar em suas mãos santíssimas a vida dos sacerdotes e leigos consagrados, dos seminaristas e de todos os vocacionados para a vida religiosa.
6. Queridos amigos, deixai-me concluir evocando a Vigília de Oração de Marienfeld na Alemanha: diante de uma multidão de jovens, quis definir os santos da nossa época como verdadeiros reformadores. E acrescentava: "só dos Santos, só de Deus provém a verdadeira revolução, a mudança decisiva do mundo" (Homilia, 20/08/2005). Este é o convite que faço hoje a todos vós, do primeiro ao último, nesta imensa Eucaristia. Deus disse: «Sede santos, como Eu sou santo» (Lv 11,44). Agradeçamos a Deus Pai, a Deus Filho, a Deus Espírito Santo, dos quais nos vêm, por intercessão da Virgem Maria, todas as bênçãos do céu; este dom que, juntamente com a fé é a maior graça que o Senhor pode conceder a uma criatura: o firme anseio de alcançar a plenitude da caridade, na convicção de que não só é possível, como também necessária a santidade, cada qual no seu estado de vida, para revelar ao mundo o verdadeiro rosto de Cristo, nosso amigo! Amém!

Santo Antônio de Santana Galvão

Antonio Galvão era o quarto filho de Antônio Galvão de França, capitão-mor da freguesia de Santo Antônio de Guarantiguetá, comerciante e membro da Ordem Terceira de São Francisco; e de Isabel Leite de Barros, conhecida por sua generosidade. Nasceu no ano de 1739 (não se sabe ao certo o dia), aproximadamente vinte e dois anos após a imagem de Nossa Senhora Aparecida ser encontrada no rio Paraíba, próximo a Guaratinguetá.

Com treze anos de idade, ingressou no seminário jesuíta de Cachoeira, Bahia, onde inclusive já se encontrava um de seus irmãos. Em 1755, falece sua mãe. No ano seguinte, devido à perseguição promovida pelo marquês de Pombal aos jesuítas, transfere-se, a conselho do pai, para o convento franciscano de Taubaté, apesar do desejo de se tornar padre daquela congregação.

Com vinte e um anos de idade, decide-se a ingressar na Ordem de são Francisco e torna-se noviço, adotando o nome de Antônio Santana, em homenagem à mãe de Nossa Senhora. Em 1761, com vinte e dois anos de idade, faz a profissão solene dos votos, durante a qual fez também o voto de defender a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, uma verdade de fé rejeitada por muitos ainda naquela época, e que só seria declarada como dogma em 1854.

Em 11 de julho de 1762, com vinte e três anos de idade, frei Antônio Galvão foi ordenado sacerdote e transferido para o Convento de São Francisco na cidade de São Paulo, a fim de continuar seus estudos. Durante a viagem para São Paulo, passou em Guaratinguetá para celebrar sua primeira missa, realizada na Matriz de Santo Antônio, mesma igreja de seu batismo. Em 1768, com vinte e nove anos, foi nomeado confessor, pregador e porteiro do convento, considerado um cargo importante naquela época. Destacou-se de tal forma pela sua vida piedosa e pela sua dedicação ao ponto de a Câmara Municipal lhe considerar o "novo esplendor do Convento".

Com trinta e um anos, foi convidado para fazer parte da Academia Paulistana de Letras. Na segunda sessão literária, realizada em março de 1770, declamou com sucesso, em latim, dezesseis peças de sua autoria, todas dedicadas a Santa Ana.

De 1769 a 1770, atuou como confessor no Recolhimento de Santa Teresa, casa que abrigava devotas de Teresa de Ávila na cidade de São Paulo, onde vivia a irmã Helena Maria do Espírito Santo, uma freira penitente, a qual afirmava ter visões onde Jesus lhe pedia para fundar um novo Recolhimento. Como era seu confessor, frei Galvão estudou as mensagens e se consultou com os outros religiosos, e as reconheceram como válidas e sobrenaturais. Por isso, ele ajudou a criar o novo Recolhimento, chamado Nossa Senhora da Luz, fundado em 2 de fevereiro de 1774, festa da Apresentação do Senhor, em São Paulo. Era baseado na Ordem da Imaculada Conceição, e se tornou um lar para meninas desejosas de viver uma vida religiosa sem fazer votos. Com a morte repentina da irmã Helena em 23 de fevereiro de 1775, tornou-se o novo superior do instituto. Tinha ele trinta e seis anos de idade.

Naquela altura, já tinha fama de santidade e de ser capaz de milagres, gerando uma grande procura pelos doentes. Sem condições de visitar um enfermo, escreveu num pedaço de papel uma frase do Ofício de Nossa Senhora: Post partum Virgo, Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis ("Após o parto, ó Virgem, inviolada permanecestes: rogai por nós, Santa Mãe de Deus"). Em seguida, enrolou o papel no formato de uma pílula e deu-o a uma jovem cujas fortes cólicas renais estavam colocando sua vida em risco. Depois que ela tomou a pílula a dor cessou imediatamente e ela expeliu uma grande quantidade de cálculo renal. Em outra ocasião, um homem pediu-lhe ajuda para sua esposa, a qual passava por um parto difícil. O frei enviou-lhe as pílulas de papel, e a criança nasceu rapidamente, sem maiores complicações. A história das pílulas espalhou-se rapidamente e frei Galvão foi obrigado a ensinar às irmãs do Recolhimento como fabricá-las, o que elas fazem até os dias de hoje. Elas são distribuídas gratuitamente para cerca de 300 fiéis diariamente.


Naquela época, uma mudança no governo da província de São Paulo trouxe um líder inflexível , e este ordenou o fechamento do convento. Frei Galvão aceitou a decisão, mas as freiras se recusaram a abandonar o local, e devido à pressão popular e aos esforços do bispo, o convento foi logo reaberto. Posteriormente, com o crescente número de novas irmãs, a construção de mais espaço de convivência se tornou necessária. Frei Galvão demorou vinte e oito anos para construir um novo convento e uma igreja, sendo esta última inaugurada em 15 de agosto de 1802. Além das obras de construção e dos deveres dentro e fora de sua Ordem, ainda comprometeu-se também com a formação das irmãs. Os estatutos escritos por ele eram um guia para a vida interior e para a disciplina das religiosas.
Quando as coisas pareciam estar mais calmas, uma outra intervenção do governo trouxe uma nova provação para frei Galvão. O capitão-mor sentenciou um soldado à morte por ofender seu filho, e o sacerdote foi obrigado a se exilar por ter defendido o soldado. Mais uma vez, a pressão popular conseguiu revogar a ordem contra o padre.

Em 1781, frei Galvão foi nomeado mestre dos noviços em Macacu. Entretanto, as irmãs e o Bispo de São Paulo, Dom Manuel da Ressurreição, recorreram ao superior provincial, escrevendo-lhe que "nenhum dos habitantes desta cidade será capaz de suportar a ausência deste religioso por um único momento". Como resultado, ele foi mandado de volta para São Paulo. Mais tarde, em 1798, foi nomeado guardião do Convento de São Francisco, sendo reeleito em 1801.

Em 1811, fundou o Convm a formação das irmãs. Os estatutos escritos por ele eram um guia para a vida interior e para a disciplina das religiosas.

Quando as coisas pareciam estar mais calmas, uma outra intervenção do governo trouxe uma nova provação para frei Galvão. O capitão-mor sentenciou um soldado à morte por ofender seu filho, e o sacerdote foi obrigado a se exilar por ter defendido o soldado. Mais uma vez, a pressão popular conseguiu revogar a ordem contra o padre.

Em 1781, frei Galvão foi nomeado mestre dos noviços em Macacu. Entretanto, as irmãs e o Bispo de São Paulo, Dom Manuel da Ressurreição, recorreram ao superior provincial, escrevendo-lhe que "nenhum dos habitantes desta cidade será capaz de suportar a ausência deste religioso por um único momento". Como resultado, ele foi mandado de volta para São Paulo. Mais tarde, em 1798, foi nomeado guardião do Convento de São Francisco, sendo reeleito em 1801.

Em 1811, fundou o Convento de Santa Clara em Sorocaba. Onze meses depois, retornou ao Convento de São Francisco, na cidade de São Paulo. Em sua velhice, obteve permissão do bispo dom Mateus de Abreu Pereira para ficar no Recolhimento, onde faleceu em 23 de dezembro de 1822, com oitenta e três anos de idade.

Frei Galvão foi sepultado na igreja do Recolhimento Nossa Senhora da Luz, sendo o seu túmulo um destino de peregrinação dos fiéis que teriam obtido favores devido a sua intercessão. Na época de seu enterro, sua fama de santo já havia se espalhado por todo o Brasil, e os frequentadores de seu velório, desejosos em guardar uma relíquia sua, foram cortando pedacinhos de seu hábito, o qual foi reduzido até os joelhos. Como ele somente possuía aquele hábito, foi sepultado com um de outro frade, ficando igualmente curto (frei Galvão tinha aproximadamente 1,90 m de altura!). A primeira lápide do túmulo teria o mesmo destino de seu hábito, sendo pouco a pouco quebrada e levada pelos devotos, os quais colocavam as pedras nos copos com água para os doentes.

Frei Galvão foi beatificado em 25 de outubro de 1998, no Vaticano, pelo papa João Paulo II. Foi o primeiro bem-aventurado nascido no Brasil. Em 11 de maio de 20087, em visita do papa Bento XVI ao Brasil, foi canonizado em São Paulo.ento de Santa Clara em Sorocaba. Onze meses depois, retornou ao Convento de São Francisco, na cidade de São Paulo. Em sua velhice, obteve permissão do bispo dom Mateus de Abreu Pereira para ficar no Recolhimento, onde faleceu em 23 de dezembro de 1822, com oitenta e três anos de idade.

Frei Galvão foi sepultado na igreja do Recolhimento Nossa Senhora da Luz, sendo o seu túmulo um destino de peregrinação dos fiéis que teriam obtido favores devido a sua intercessão. Na época de seu enterro, sua fama de santo já havia se espalhado por todo o Brasil, e os frequentadores de seu velório, desejosos em guardar uma relíquia sua, foram cortando pedacinhos de seu hábito, o qual foi reduzido até os joelhos. Como ele somente possuía aquele hábito, foi sepultado com um de outro frade, ficando igualmente curto (frei Galvão tinha aproximadamente 1,90 m de altura!). A primeira lápide do túmulo teria o mesmo destino de seu hábito, sendo pouco a pouco quebrada e levada pelos devotos, os quais colocavam as pedras nos copos com água para os doentes.

Frei Galvão foi beatificado em 25 de outubro de 1998, no Vaticano, pelo papa João Paulo II. Foi o primeiro bem-aventurado nascido no Brasil. Em 11 de maio de 20087, em visita do papa Bento XVI ao Brasil, foi canonizado em São Paulo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Entrevista de Dom Manoel (III parte)


Terceira parte da entrevista de Dom Manoel Pestana Filho, na qual ele fala sobre sua própria fé, seu relacionamento com outros bispos da época e sobre a teologia da libertação.

“Já tive uma crise de fé”

Luiz Carlos Bordoni — Em algum momento, o senhor chegou a vacilar na fé?

Quando comecei a estudar filosofia, tive uma crise muito forte. E, hoje, estou convencido que a vocação que nunca teve uma crise existencial não é suficientemente sólida. Eu gostava muito de estudar, lia muito e fiquei um pouco assustado. Tive um professor que me disse: “Tenha calma. Quando se estuda o dogma, se perde a fé. Quando se estuda a moral, perde a vergonha”. Depois, tive outra crise — queria ser missionário na China. Mas meu diretor espiritual me disse: “É uma ilusão de juventude”. E não me deixou ir. Como padre, teve uma época que fiquei estatelado. Tenho uma biblioteca em Anápolis. Muita gente vai estudar lá. De repente, vi todas aquelas coisas que eu apreciava serem contestadas de todo lado. Era uma situação angustiante. O próprio dogma, as Sagradas Escrituras... Então, um dia, relendo a história da igreja, vi que ela já foi atacada por todos os lados. Mas venceu e sobreviveu a todos os hereges e até os enterrou maternalmente.

José Maria e Silva — A contestação a que o senhor se refere vinha da teologia da libertação?

Sem dúvida. Mas a causa da nossa diferença com a teologia da libertação não é a questão social. Nessa área ela fez coisas muito boas. O problema é a fundamentação antiteológica da teologia da libertação. Leonardo Boff, em toda a sua obra, destrói, praticamente, todo dogma cristão. Em seu último livro, Igreja, Carisma e Poder, ele passa de vez para uma ecologia da libertação.

Licínio Leal Barbosa — Boff deixou o hábito?

Deixou o hábito, mas não o nome. O nome é importante. O nome é importante... Lamento muito. Boff é um grande talento. A teologia da libertação esvaziou o dogma de tal maneira, que só restou sociologia, psicologia e a guerrilha. Trocaram a fundamentação das Escrituras pelo dogma marxista.

José Maria e Silva — O senhor não acha que o Deus da teologia da libertação está se aproximando muito do Deus-energia do Movimento da Nova Era?

Exatamente. Essa é a fraqueza essencial da teologia da libertação. Chega num ponto em que não há nada mais em que apoiar. Sobra um panteísmo em que todos somos deuses. João Paulo II foi muito feliz quando disse que a maior desgraça do homem moderno foi ter perdido a noção do pecado. Caímos no subjetivismo moderno que faz do homem a medida da verdade.

Euler Belém — A teologia da libertação está na UTI?

De modo algum. A teologia da libertação continua ameaçando os seminários. Há seminários que resumem toda a teologia à obra de Boff. Por favor, os livros de Boff estão todos fora da linha da Igreja. Outro dia, na Venezuela, um seminarista me disse: “Aqui, o único teólogo vivo que nós conhecemos é Boff”. Agora, como o Catecismo da Igreja Católica, se tornou possível ter um norte. Mas fiquei sabendo que há padres que dizem que ele é “um escritorzinho da ala polaca do Vaticano”. Frei Betto diz que não fez teologia para não se enquadrar num sistema. Então, como se pode chamá-lo de teólogo? Alguém pode dizer: “Frei Betto vendeu 2 milhões de exemplares”. Simples: Fidel Castro comprou 1 milhão e 200 mil. Não sei se pagou, mas comprou.

Euler Belém — Qual o grande teólogo brasileiro de uma linha divergente da teologia da libertação?

O padre Bannwarth, que foi reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tem estudos teológicos interessantíssimos. Infelizmente, ele já morreu.

Licínio Leal Barbosa — Qual é o papel de dom Hélder Câmara na formação do pensamento moderno da Igreja no Brasil?

Dom Hélder foi integralista. Ele projetou a Igreja do Brasil fora do Brasil. Não me agradava a maneira negativa com que ele se referia a todas as coisas do Brasil. Mas foi uma figura importante. Houve um tempo, entre 1965 e 1975, em que os bispos, no Brasil, só eram nomeados depois de passarem por ele.

Licínio Leal Barbosa — Houve uma certa época em que a CNBB parecia ter uma voz divergente em relação ao Vaticano, a um ponto de se falar em Igreja brasileira. Como o senhor avalia isso?

Não vou dar o meu testemunho, porque ele poderia ser suspeito, já que minha posição é muito clara. Vou pegar a opinião de um sacerdote irlandês que foi assessor da CNBB. Não me recordo o nome do livro, nem do autor. Sei que ele diz com todas as letras: “Quando se olha a Igreja do Brasil, logo se descobre os traços de Jesus Cristo. Mas, mudando um pouquinho o ângulo de visão, já não se sabe se é Cristo ou se é Marx”. A Igreja no Brasil já viveu um anti-romanismo muito acentuado. Em reunião de bispo, para se discutir liturgia, já ouvi um dos assessores dizer: “Acho que os bispos do Brasil precisam ter mais coragem e impor sua vontade a Roma”. Mas este anti-romanismo não é a vontade da maioria. Pelo contrário. Ocorre que essa maioria é quase silenciosa. Evidentemente, essa situação mudou. João Paulo II foi tomando as rédeas da Igreja no Brasil, com a nomeação dos bispos. Depois, a queda do Muro de Berlim representou um baque para a teologia da libertação.

Licínio Leal Barbosa — Com relação à Igreja da Holanda pode-se falar em cisma?

Tive uma experiência penosa com um sacerdote holandês. Ele me disse: “Quero uma igreja sem papa e sem bispo”. Sem disciplina, é claro. E não é fácil enfrentar a multidão, a opinião pública, ser apontado como quadrado, cafona... No fundo, o catecismo holandês acaba negando a realidade da eucaristia. Ele foi o germe de todas as doutrinas erradas que surgiram depois. E quando a Santa Sé exigiu a correção daquele catecismo, eles não aceitaram fazer as correções — limitaram-se a colocá-las como um anexo do texto.

Licínio Leal Barbosa — Na Holanda, chegou a se aceitar drogados fumando maconha dentro das igrejas.

Lá, houve o caso de uma igreja em que as pessoas podiam entrar nela com motocicletas. Imagina a maravilha na hora da consagração — uruuummm! (Risos). Isso foi a primeira vez. Da segunda vez, os motoqueiros deixaram as motos dentro da igreja e foram passear lá fora. O padre celebrava a missa para as motocas (Risos). É lamentável, mas perdemos duas gerações de catequese. Essas crianças que foram catequizadas por esses métodos modernos não sabem nada. Peguei um catecismo desses. Falava de Deus uma vez — e era na última página. Essa gente não é cristã coisíssima nenhuma.

Euler Belém — A atuação de dom Antônio aparentemente é muito discreta, se comparada à de dom Fernando, seu antecessor na Arquidiocese de Goiânia. Quais são os méritos dele? Dom Antônio faz bem em fugir da mídia?

São personalidades diferentes. Dom Fernando, um vulcão. Impetuoso, era assim mesmo capaz de pedir perdão a uma flor que suas larvas queimassem. As marcas positivas de sua passagem são evidentes. Dom Antônio, sereno, tímido, busca compor como pode. Hoje, ser bispo não constitui missão fácil. Muitas coisas devem-se resolver ou construir em silêncio. A mídia pode ajudar mas, frequentemente, a busca do sensacional, do fantástico, só atrapalha. Dizia-me uma velhinha lá no litoral norte de São Paulo: “Seu padre, feijão podre é que bóia. O feijão bom fica no fundo”. Quantas vezes descobri que ela tinha razão...

Euler Belém — Com a saída de dom Luciano Mendes de Almeida da CNBB, ela ganhou em substância religiosa e perdeu em militância política, entendem alguns. O que o senhor acha?

Creio, e o disse várias vezes em assembléias, que nos preocupamos demais com militância política e social, não sem algumas vitórias e muito desgaste na área religiosa. Não podemos fugir à responsabilidade política. É o quarto mandamento. Mas correr o risco de identificar-se com partidos que, programaticamente, defendem posições anticristãs, como aborto, esterilização ou contracepção, “casamentos” homossexuais etc., é comprometer a nossa própria natureza e desorientar os fiéis. Nada do que se faz é eficaz sem atingir e formar, cristãmente, a consciência e o coração dos homens. Aí está o essencial da missão da Igreja, sem o quê o resto é resto.

Euler Belém — Alguns dizem que o movimento dos sem-terra não é ideológico: as pessoas estariam apenas em busca de terra para produzir. Outros asseguram que o movimento é ideológico: entre os sem-terra, muitos seriam petistas ou de outras correntes políticas. O objetivo deles seria perturbar a ordem social. Como o senhor avalia a questão?

Uma coisa é a reforma agrária que, cada vez mais, se mostra necessária e urgente, outra coisa é o movimento dos sem-terra. Perguntei certa vez a um bispo responsável pela Pastoral da Terra se era verdade que 80 por cento dos títulos concedidos em Goiás já tinham sido vendidos. Respondeu-me que não podia ser tão preciso, mas o número de tais casos era elevado. Insisti, estranhando que, dessa forma, não ajudávamos para a solução de um problema social, mas fomentávamos a indústria da invasão. Disse-me que eu não estava entendendo nada: podíamos não resolver o problema, mas estávamos desestabilizando o sistema. Protestei. Dessa forma, não servíamos deles para um objetivo político. Isso foi mais ou menos em 1980. Uma coisa é quem puxa os cordéis, outra, os que são levados, de boa fé e até entusiasmo. Em tudo isso, há muitos equívocos e não poucos mistérios. Entretanto, a verdade é que nesses acontecimentos aparece clara a multidão de carentes e empobrecidos que exige de nós grande senso de justiça e a coragem política do bem comum.

Euler Belém — Como o senhor avalia o trabalho pastoral de dom Pedro Casaldáliga e de dom Tomás Balduíno?

Não fui constituído juiz de meus irmãos. Evidentemente, penso que, sem contestar os seus méritos, nunca assumiria algumas de suas atitudes. Alguma coisa mudou, é claro. Entretanto, prefiro privilegiar o sobrenatural da ação da Igreja.

Entrevista de Dom Manoel (II parte)


Segunda parte da entrevista. Dom Manoel comenta sobre a televisão brasileira e outros assuntos em pauta naquele momento, como uma possível renúncia do Papa João Paulo II e sobre o saudoso dom Lucas Moreira Neves.

"A TV brasileira é podre"

Euler Belém — A Globo tem uma imagem de emissora católica. Mas é uma das que mais apresentam padres em situações difíceis em suas novelas. Como o senhor analisa isso?

Não vejo nada de católico na Globo. Pelo contrário, devemos a ela grande parte da demolição dos valores cristãos no Brasil. Hoje, não só jovens, mas até pessoas adultas acham que devem imitar o comportamento e as expressões que são veiculadas nas telenovelas. E não é só a Globo, é a Bandeirantes, o SBT... Esses diretores não sabem o mal que estão fazendo. Na Itália, em 94, a Rai, a televisão italiana, passou o ano inteiro trabalhando sobre a Divina Comédia, de Dante (Dante Alighieri, 1265-1325, poeta italiano). E o grande sucesso que a Divina Comédia fez junto ao público foi exatamente devido às condenações que Dante reserva aos corruptos no inferno. Os jovens se entusiasmaram com a descrição tão perfeita da corrupção. Quer dizer, lá a televisão fez um trabalho educativo, de recuperação da popularidade de um grande poeta.

Euler Belém — Os produtores de TV no Brasil alegam que a oferta de sexo é sinônimo de liberdade, de país desenvolvido. Mas, nos países desenvolvidos, não se vê nada disso.

A televisão brasileira é a mais corruptora do mundo. Dom Lucas Moreira Alves viajou pelo mundo todo, conhece a televisão de 60 países, e garante que nunca viu televisão mais podre do que a nossa. É uma verdadeira escola de prostituição. Às sete, oito da noite, quando as crianças ainda estão na sala, liga-se a televisão e a sala de visitas se transforma num prostíbulo. A televisão brasileira é um curso acelerado de prostituição. Duvido que um pai de família tenha coragem de folhear uma revista pornográfica junto com suas filha de sete, oito anos. No entanto, esse mesmo pai de família assiste telenovelas que mostram essa mesma pornografia, só que não apenas graficamente, mas ao vivo, o que é muito pior.

Euler Belém — O que o senhor assiste na televisão?

O que ainda assisto, mesmo assim com um espírito crítico muito atento, são os telejornais. Programas, só de debate ou algum filme. Nos Estados Unidos já existe uma preocupação no sentido de que a televisão deixe de ser um vício para ser um lazer. Há um grupo alemão que acha que a criança não deveria assistir televisão até os 11 anos de idade. Eles entendem que o tóxico mais terrível da sociedade moderna é exatamente a televisão. A pessoa cria uma dependência absoluta da televisão. E sofre uma transformação psíquica, como ocorre com os usuários de cocaína, heroína. Quando cheguei à Diocese de Anápolis, em 89, ainda havia algumas cidadezinhas do interior que não tinham televisão. Dois anos depois de implantada a televisão, a situação era completamente diferente. As pessoas não eram as mesmas.

José Maria e Silva — Então, o que fazer? Censurar a TV?

Falar em censura deixa todo mundo ouriçado. Mas todos nós vivemos sob censura. Os tóxicos, por exemplo, são censurados. Eles representam um grande risco. Hoje, até o teatro, sob o pretexto de que arte é liberdade, virou bandalheira. É o sexo aberto.

José Maria e Silva — Além da violência e do sexo, o riso exacerbado, o escracho, também não são um corrosivo contra os valores morais? A Globo, por exemplo, já fez novela das sete em que Dercy Gonçalves fazia chacota de Deus.

O homem que não é alegre ou está doente ou é mau. A alegria é a cor de saúde da alma. Mas uma coisa é alegria, outra coisa é o deboche, o escárnio. Esse tipo de riso é um dissolvente terrível de qualquer valor. E é ele que impera, hoje, na televisão. O escárnio, o deboche, é um fenômeno das decadências. O homem chega a um ponto em que não encontra saída e resolve rir da própria desgraça. É o contrário do riso de um Machado de Assis, de um Suetônio, por exemplo, brilhantemente analisado por Viana Moog.

Euler Belém — Reginaldo Faria vai fazer um filme sobre o assaltante Leonardo Pareja e dois jornalistas estão fazendo sua biografia. Estariam promovendo o crime e, assim, patrocinando uma inversão de valores?

Diz o salmista que, “em toda a parte, os malvados andam soltos, porque se exalta entre os homens a baixeza” (Ps 11,8). Não se trata de explicar ou até desculpar os erros dos homens que sempre encontram pretextos para justificar os próprios crimes. O problema está em apresentar criminosos como heróis, super-homens. Porque a humanidade busca sempre a quem seguir e em quem se espelhar. Este é um dos segredos da importância do culto aos santos, que trazem para mais perto de nós, com nossas fraquezas, a perfeição divina de Cristo. Ora, hoje só nos dão anti-heróis, modelos perversos. Carlyle afirmou que “a história dos povos é feita da história de seus grandes homens”. Quais os grandes homens que a sociedade e a mídia nos oferecem? Valeria a pena repensar a lição de James Cagney no famoso filme Anjos de Cara Suja, de 1938.

Luiz Carlos Bordoni — A ficção de Morris West, As Sandálias do Pescador, poderia um dia se tornar realidade dentro da Igreja?

Morris West foi meu colega na Universidade Gregoriana de Roma. Ele foi sacerdote, fez filosofia e viveu uns quatro anos mais do que eu lá. Trabalha com um material muito vivo. Morris West fez a projeção de uma situação que começava a se delinear na época. Mas, então, ninguém poderia prever que João Paulo II seria a reviravolta que foi na Igreja.

Luiz Carlos Bordoni — João Paulo II não está em conflito com a Rerum Novarum?

Absolutamente. Basta ler suas enclíclicas para ver que há uma continuidade de pensamento. João Paulo II faz afirmações fantásticas. Ele diz que sobre toda propriedade grava uma hipoteca social, o que significa que o direito de propriedade não é absoluto. João Paulo II é um homem extraordinário. Evidentemente, tem muitos inimigos, que torcem para que ele saia. Mas sua saúde não está assim tão grave como disse a revista Veja. Estive com o papa este ano e, na audiência que ele teve comigo, pude perceber que ele estava muito debilitado. Era visível o sofrimento dele. Mas, dois dias depois, ele estava muito bem. Tem um poder de recuperação fantástico. E nisso está a contradição da Veja — ela afirma que ele está decrépito, mas depois reconhece que ele não desmarcou um item de suas agendas.

Luiz Carlos Bordoni — Essas informações que alardeiam a doença de João Paulo II não podem ser uma arma de muitos padres progressistas que desejam que ele morra?

Alguns talvez nem rezem para que o papa morra, simplesmente porque não acreditam na oração. (Risos) Alguns, eu não falei todos. Pelo amor de Deus, não venham me complicar... (risos). João Paulo II está recuperando alguns valores que foram jogados fora e estão custando caro não só à Igreja, mas à humanidade. E o papa tem muita coragem. Não é fácil falar o que ele fala nos Estados Unidos, na Irlanda. João Paulo II nos contou que Gorbachev chegou a dizer para ele: “O senhor não é alheio a essas transformações que estão ocorrendo no mundo comunista”. Também não era para menos — quando João Paulo II visitou a Polônia, o New York Times o chamou, em manchete, de “o homem que invadiu a Polônia”.

Euler Belém — O senhor acredita que o papa possa renunciar?

Já aconteceu renúncia de papa na história, mas não creio que João Paulo II renuncie.

Licínio Leal Barbosa — Dom Lucas Moreira Neves, cardeal-primaz do Brasil, teria chance de sucedê-lo?

O papa tem muita estima por dom Lucas, já pude constatar isso. Dom Lucas é um homem conhecido em todo o mundo. Sem dúvida, poderia ser papa.

Euler Belém — A Veja criticou dom Lucas sob o ponto de vista intelectual. Ele é um homem preparado?

Dom Lucas tem uma formação muito sólida, muito vasta. Evidentemente, hoje é impossível se saber tudo. As especializações se multiplicaram muito.

Entrevista de Dom Manoel



Entrevista de Dom Manoel Pestana a um jornal de Anápolis em junho de 1996. Nela, trata de sua vida e de outros temas tidos como "polêmicos". Segue o primeiro trecho, no qual dom Pestana fala de sua vida e da administração da diocese de Anápolis.

A entrevista do bispo de Anápolis, dom Manuel Pestana, foi publicada em junho de 1996. É curioso notar como a entrevista do bispo reagiu bem ao vigor do tempo. Ela continua “viva”, brilhante. Há trechos antológicos, como a passagem em que narra sua crise de fé e a análise de algumas obras, como as de Marx e Renan. Depois de lida a entrevista, o leitor poderá até continuar dizendo que dom Pestana é conservador e, mesmo, moralista. Mas não poderá deixar de admirar sua lucidez, sua inteligência. E, igualmente instigante, Pestana é dotado de um grande senso de humor. Sabe ser irônico sem parecer que está sendo irônico, como Bernard Shaw, que o bispo certamente não admira. A entrevista de dom Pestana é uma ambrosia intelectual. Para os mortais, é claro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Milagre Eucarístico de Roma - Itália, 595



Este milagre, cuja Relíquia está guardada até os dias de hoje em Andechs, Alemanha é confirmado por numerosos documentos. Aconteceu em Roma no ano de 595 durante uma Celebração Eucarística presidida pelo Papa São Gregório Magno. Uma nobre dama romana, assaltada pela dúvida sobre a presença real do Senhor no pão consagrado, deu uma gargalhada no momento em que ia receber a Comunhão. O Pontífice, perturbado, não permitiu que ela comungasse e nesse mesmo instante as espécies se transformaram em Carne e Sangue.

Entre as obras mais importantes que mencionam este milagre que aconteceu em Roma no ano de 595, está a Vita beati Gregorii Papae (787) de autoria do Diácono Paulo. Era costume naquele tempo que o pão utilizado para a Celebração Eucarística fosse preparado pelos próprios fiéis. O Papa São Gregório Magno foi testemunha direta deste Milagre. Quando o Papa celebrava a missa dominical na antiga igreja dedicada a São Pedro, no momento de dar a Comunhão, viu que uma das senhoras que havia preparado o pão estava na fila dando gargalhadas. O Pontífice perplexo, repreendeu-a duramente e perguntou porque ela se comportava daquele jeito. Ela se justificou dizendo que não conseguia acreditar que naquele pão que ela mesma tinha preparado estivesse o Corpo de Cristo. São Gregório, então, não permitiu que a mulher comungasse e implorou a Deus que a iluminasse. Assim que o Papa terminou de rezar, o pedaço de pão que a mulher preparou tinha se transformado em Carne e Sangue. A mulher arrependida, se ajoelhou e começou a chorar. Ainda hoje, uma parte da Relíquia está guardada em Andechs, Alemanha, no Mosteiro Beneditino local.

Fonte: Os Milagres Eucarísticos no Mundo. Edições São Clemente
http://www.therealpresence.org/