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sábado, 23 de abril de 2011

Rubricas do Tríduo Pascal: Vigília Pascal


  • Esta noite deve se celebrar em honra do Senhor, e esta Vigília é a mãe de todas as Vigílias.
  • A Igreja mantém-se de vigia à espera da Ressurreição do seu Senhor, e celebra-a com os Sacramentos da Iniciação Cristã.
  • A Vigília deve ser celebrada à noite: não deve iniciar antes do anoitecer e deve terminar antes de amanhecer.
Deve-se preparar:
  • O necessário para a celebração da missa ordinária
Para a benção do fogo:
  • Fogueira (em um lugar fora da igreja)
  • O círio pascal
  • Cinco cravos ou grãos de incenso
  • Utensílio para acender o círio (pode ser uma vela)
  • Lâmpada para iluminar os textos
  • Velas para os que participam da Vigília
  • Pinça para tirar brasas do fogo novo para o turíbulo
Para o precônio pascal:
  • Candelabro para o círio pascal, junto ao ambão
Para a liturgia batismal:
  • Recipiente com água (pode ser a própria pia batismal)
  • O que for necessário caso se administrem os sacramentos da iniciação (óleo dos catecúmenos, Santo Crisma, vela batismal, Rituais)
Observações:
  • As luzes da igreja devem estar apagadas
  • A fogueira deve ser realmente visível e iluminar
  • Paramentos de cor branca, com a maior solenidade
  • Não se leva cruz processional
  • As velas do altar permanecem apagadas até o canto do Glória

Benção do fogo e preparação do Círio Pascal

  • Na sacristia ou em outro lugar adequado, o celebrante, diácono e concelebrantes revestem-se de paramentos de cor branca para a Santa Missa.
  • O celebrante, acompanhado por seus auxiliares, dirige-se ao local onde o povo está reunido. À frente, vai um acólito ou ministro com o círio pascal.
    • Não se levam cruz processional ou velas acesas.
    • O turíbulo se leva sem brasas.
  • De pé, diante do povo, o celebrante dá início à celebração e explica com breves palavras o sentido desta celebração, usando as palavras do Missal ou outras semelhantes.
  • Em seguida, o celebrante benze o fogo, dizendo a oração com as mãos estendidas. Terminada a oração, acende o Círio Pascal com o fogo novo, sem dizer nada.
    • O turiferário retira brasas do fogo novo para acender o turíbulo.
  • Depois de benzido o fogo novo, o acólito leva o Círio Pascal ao celebrante que, de pé, grava uma cruz no próprio Círio, e outros símbolos, conforme descrito no Missal.
  • Depois de confeccionado o Círio, o celebrante põe incenso no turíbulo e, se houver diácono, este recebe o Círio Pascal, ou o mesmo é levado pelo próprio celebrante.
  • Organiza-se a procissão que entra na igreja:
    • À frente vai o turiferário, seguido pelo diácono ou pelo celebrante com o círio pascal, os demais assistentes e o povo.
    • À porta da igreja, o diácono para e ergue o Círio e entoa o canto “Eis a luz de Cristo”, e apenas o celebrante acende a sua vela no círio.
    • No meio da igreja, o diácono ou o celebrante canta uma segunda vez, e os fiéis acendem suas velas no círio pascal, passando o lume de uns aos outros.
    • Ao chegar ao altar, o diácono ou o celebrante para e canta um terceira vez, voltado para o povo. Em seguida, coloca o Círio no candelabro para ele preparado, junto ao ambão.
    • Acendem-se as luzes todas da igreja
  • Chegado ao presbitério, o celebrante se dirige para a cadeira presidencial, entrega a sua vela acesa ao diácono e põe incenso no turíbulo, como para o Evangelho da Missa.
    • Se o diácono proclama o Precônio, pede e recebe a benção, conforme descrito no Missal.
  • O diácono ou o celebrante incensa o livro e o círio e canta o Precônio do ambão.
    • Se, por razões pastorais, um cantor proclamar o Precônio pascal, o sacerdote incenso o livro e o círio. O cantor deve omitir a parte das palavras “E vós, que estais aqui” até o fim do convite e a saudação “O Senhor esteja convosco”.

Liturgia da Palavra

  • Terminado o Precônio pascal, todos apagam as velas e sentam-se.
  • Antes das leituras iniciarem-se, o celebrante ou o diácono faz breve monição, com as palavras que vêm no Missal ou outras semelhantes.
  • São propostas nove leituras: sete do Antigo Testamento e duas do Novo (Epístola e Evangelho).
    • Por razões pastorais, podem-se reduzir o número de leituras do Antigo Testamento, de modo a que sejam no mínimo quatro e não se omita a leitura do capítulo 14 do Êxodo.
  • Após cada leitura, segue-se o seu salmo e a oração do “Oremos”, a qual deve ser feita sempre de pé.
  • Após a última leitura do Antigo Testamento, com seu responsório e oração, entoa-se solenemente o hino “Glória a Deus nas alturas”, enquanto se acende as velas do altar e se tocam os sinos.
  • Após o Glória, reza-se a oração coleta e se proclama a leitura da Epístola, enquanto todos se sentam.
  • Terminada a epístola, o diácono ou um leitor pode dirigir-se ao celebrante e dizer-lhe: “Reverendo Padre, eu vos anuncio uma grande alegria: o Aleluia”. Após este anúncio, ou mesmo sem ele, todos se levantam. O celebrante entoa solenemente o aleluia, por três vezes, subindo gradualmente de tom, e o povo repete-o no mesmo tom.
  • O salmista ou cantor recita o salmo, e o povo responde com aleluias.
  • O celebrante põe incenso no turíbulo e dá a benção ao diácono, como de costume.
  • Não se levam velas para a proclamação do Evangelho.
  • Após o Evangelho, faz-se a homilia.

Liturgia Batismal

  • A Liturgia Batismal pode se efetuar no próprio batistério, caso o mesmo seja visível aos fiéis. Caso contrário, coloque-se o recipiente com água no próprio presbitério.
  • Se houver batismo, faz-se a chamada e a apresentação dos catecúmenos, apresentados pelos padrinhos, caso sejam crianças.
  • O celebrante faz a exortação ao povo, conforme haja ou não batismo.
  • Entoa-se em seguida a ladainha.
    • Se a distância ao batistério é grande, a ladainha se canta durante a procissão, a qual é precedida pelo Círio pascal, seguido pelos catecúmenos com seus padrinhos e pelos celebrante e seus auxiliares.
    • Se não houver batismo nem benção da água batismal, omite-se a ladainha e procede-se à benção da água.
    • A ladainha se faz de pé, por ser tempo pascal.
  • Terminada a ladainha, se houver batismo, o celebrante, de mãos unidas, diz a oração indicada no Missal.
    • Caso não haja batismo, segue diretamente à benção da água batismal.
  • Durante a benção da água batismal, no momento indicado, se for oportuno, o celebrante imerge o círio uma ou três vezes na água, conforme indicado no missal.
  • Se houver batismo, segue-se a renúncia ao demônio, a profissão de fé e o Batismo.
  • Se não houver batismo ou mesmo após este, o celebrante recebe abençoa a água para aspersão dos fiéis e recebe a renovação das promessas batismais dos fiéis, que se conservam de pé, com as velas acesas nas mãos.
  • Terminada a renovação das promessas batismais, o celebrante asperge o povo com a água benta.
    • Se houver neófitos (batizados), estes são conduzidos para tomar seu lugar entre o povo.
    • Se a benção da água batismal tiver sido feita fora do batistério, o diácono e alguns assistentes a conduzem à pia batismal.
  • Após a aspersão dos fiéis, omite-se o Credo, e o celebrante prossegue com a Oração Universal.

Liturgia Eucarística

  • Segue-se a Liturgia Eucarística, como no Ordinário.
  • Podem se fazer menção dos batizados segundo as fórmulas do Missal e do Ritual.
  • Antes da Comunhão, pode se fazer breve monição aos que receberão a Iniciação.

Ritos finais

  • À fórmula habitual de despedida dos fiéis (“Ide em paz”), acrescenta-se um duplo Aleluia, e o mesmo fazem os fiéis na resposta.
  • O Tríduo Pascal encerra-se nas Segundas Vésperas do Domingo da Páscoa.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cronologia da Semana Santa: Terça-feira Santa (11 de Nisã)

Para os judeus, o dia 11 de Nisã é o dia da escolha do cordeiro pascal (Ex 12, 3). É no contexto desse dia que se pode inserir a traição de Judas (Mt 26,14; Mc 14, 10-11; Lc 22, 3-6). Assim, é no décimo primeiro dia que os chefes dos sacerdotes "escolhem" o seu cordeiro sem defeito, para o sacrifício pascal.

Terça-feira Santa (11 de Nisã)

A figueira seca (Mc 11, 20). Marcos insere a conclusão do episódio da figueira seca no dia seguinte aos acontecimentos de 10 de Nisã, mas com o mesmo simbolismo de Mateus.

Marcos insere aqui os discursos e discussões apresentados por Mateus no dia anterior:
Discussão sobre a autoridade de Jesus (Mc 11, 27-33)
Parábola dos vinhateiros homicidas (Mc 12, 1-12)

O dia em Mateus parece iniciar-se com o discurso sobre o banquete nupcial (Mt 22, 1-14; cf. Lc 14, 16-24). Depois, há a discussão sobre o tributo a César, inserido no mesmo contexto pelos outros sinóticos (Mt 22, 15-22; Mc 12, 13-17; Lc 20, 20-26); a discussão com os saduceus sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22, 23-33; Mc 12, 18-27; Lc 20, 27-40); a disputa sobre o maior mandamento, contra os fariseus, a qual é apresentada por Lucas em outro contexto histórico (Mt 22, 34-40; Mc 12, 28-31); a pergunta de Jesus sobre a divindade do Cristo (Mt 22, 41-46; Mc 12, 35-37; Lc 20, 41-44), parte esta que pode considerar-se em Marcos como pertencente à quarta-feira.  Nesse contexto, pode se considerar encerrado o dia em Mateus.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Entrevista de Dom Manoel (V parte)


Talvez um dos trechos mais importantes da entrevista, dom Pestana fala sobre literatura e política, e expõe seu pensamento sobre o marxismo, educação, Tradição da Igreja e tradições, liturgia, outras religiões e vários dramas que afligiam e ainda afligem a juventude, como sexo e drogas.

*****

Renan é o poeta da mentira”

Euler Belém — O trabalho de Huberto Rohden, autor de O Drama Milenar do Cristo e do Anti-Cristo, tem consistência teológica e filosófica? O que acha do livro citado?

Não conheço o livro, logo não posso julgá-lo. Seminarista de calças curtas, lia seus livrinhos açucarados do Apostolado da Boa Imprensa. O seu Paulo de Tarso, para nossa decepção, resultou ser, em boa parte, plágio do alemão Hollzsmeister, se não me engano. Depois, ele deixou os Jesuítas e, finalmente, o sacerdócio. Recebeu uma bolsa para pesquisas científicas em Princeton; freqüentou três anos o Golden Lotus Temple, de Kriya Yoga, em Washington, percorreu o Oriente em busca da mística. Promoveu cursos em Goiânia e Brasília sobre o que chama de Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho. Homem de muitas palavras novas e idéias mais antigas, como macrocosmo mundial e microcosmo hominal, misturou um pouco de Ocidente com muito do Oriente, apresentou um amálgama de ciência, filosofia e esoterismo gnóstico, bem ao gosto da mentalidade místico-poética de muitos dos nossos contemporâneos.

Euler Belém — Rohden cita Nietzsche: “Se o Cristo voltasse ao mundo, a primeira declaração pública que faria a todos os países seria esta: ‘Cristãos de todas as igrejas, sabei que eu não sou cristão — eu sou Cristo”. Trata-se de uma crítica aos cristãos?

Não afirmo que todas as críticas aos cristãos sejam injustas. Evidentemente, tanto Nietzsche quanto Rohden não nos poupam. Somente Cristo é Cristo. Não passamos de suas pálidas imagens, na melhor das hipóteses. Podemos ser sua morada, mas sempre infinitamente longe dele. Para nossa desgraça, muitas vezes de cristãos temos apenas o rótulo. “Não é quem diz: Senhor, Senhor! que entra no reino dos céus, mas quem faz a vontade de meu Pai, esse entra no reino dos céus” — disse Jesus. Para o cristão, cada instante é uma oportunidade que Deus lhe dá para ser melhor. Quem se julga suficientemente bom, já começa a ser ruim.

Euler Belém — Qual é a biografia mais completa de Jesus Cristo? É a de Renan?

Pelo amor de Deus! Renan é anticristão. É o poeta da mentira. Ele embrulha tudo. Muitos jovens se perderam lendo Renan. Leiam um brasileiro que fala dele, Paulo Setúbal, no Confiteum.

José Maria e Silva — O senhor leu Renan com prazer?

Vou fazer uma comparação meio absurda: um castelo de esterco, mesmo sendo de esterco, é um castelo e pode ter muita coisa bonita. A maior biografia de Cristo, sem dúvida alguma, é a de Ricciotti, A Vida de Jesus. Quem quiser um livro mais literário sobre Jesus, e também sério, deve ler Plínio Salgado.

*****

A crença no humanismo


"Não sou favorável à volta da Missa em latim, mas creio que seria salutar que sempre houvesse missas em latim para aqueles que querem"


Euler Belém — É admirável a relação da Igreja Católica com a palavra, tradição que vem da cultura judaica. Mas, modernamente, a Igreja vem-se afastando dessa tradição. A liturgia não tem mais a mesma solenidade de antes e os padres demonstram ter pouca intimidade com o idioma. Como o senhor avalia essa queda do padrão cultural do clero?

Somos um pouco o reflexo da própria situação geral. Hoje em dia é difícil encontrar, por exemplo, um advogado que escreva uma petição sem cometer dois erros por linha. O problema da Igreja, hoje, é o fim dos seminários menores.

Licínio Leal Barbosa — Como o senhor avalia a substituição do canto gregoriano pelos cânticos laicos, profanos?

Recentemente, estive relendo o que Platão diz sobre os cantores. Ele diz que os cantores amolecem o caráter, por isso deveriam ser expulsos da cidade. Hoje, com essa vontade de se amoldar ao mundo, muitos setores da Igreja substituíram a música-oração pela música mensagem. E a música-mensagem, às vezes, pode ser até o ritmo, o grito, o berro. Já o canto gregoriano é recolhimento, é elevação. Pesquisas recentes descobriram que o canto gregoriano tem até mesmo um efeito terapêutico. Um grupo de pesquisadores alemães constatou que os doentes mentais ficam mais tranqüilos quando ouvem música clássica, ao passo que se agitam ao ouvir rock. Já um italiano notou que, com o canto gregoriano, se ia além dos efeitos da música clássica — o doente mental não apenas ficava tranqüilo como também entrava num processo de recuperação. Em Paris, há um cientista que se utiliza do canto gregoriano na cura de doenças mentais. Ele descobriu que os tons altos do gregoriano correspondem ao tom de voz da mãe quando fala com seu filho no útero. E é bom salientar que os tons altos da música de Mozart têm íntima relação com os tons altos do canto gregoriano. O mercado fonográfico redescobriu o canto gregoriano. Tudo começou com os monges da Abadia de São Domingos, que gravaram um disco. Mas eles se agastaram e não querem gravar mais. O canto gregoriano estava sendo usado até em strip-tease. Estava virando uma profanação sem limites. Em Anápolis, no seminário, estamos tentando recuperar o canto gregoriano.

José Maria e Silva — Além do canto gregoriano, o latim também foi jogado no lixo?

Infelizmente. O que é um crime. O latim é mais que um idioma — é um xadrez que esclarece o pensamento. O latim me leva à saudável ginástica mental. Evidentemente, não sou favorável à volta da missa em latim, porque não há mais condições culturais para isso, mas creio que seria salutar que sempre houvesse missas em latim para aqueles que querem. Na Europa, há igrejas que ainda hoje reservem horários para missas em latim. E há muitos fiéis que gostam.

José Maria e Silva — O senhor é a favor da missa em latim com o padre virado de costas para o público?

O padre nunca esteve de costas para o público — ele esteve à frente do público, virado para Deus. É uma questão de interpretação. E a missa atual coloca o padre de frente para o público e para Deus, que fica no centro, no altar. O que também é muito positivo. O que ocorre é que muitos sacerdotes se esqueceram que sua função é interligar o povo a Deus e se coloca como o centro da missa, se transformando num showman. É lamentável ter que dizer isso, mas há certas missas que não diferem muito de programas de auditório da televisão.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia as missas afro-brasileiras, que incorporam a dança e o batuque à liturgia?

Entendo isso como uma volta ao que nunca existiu. Todo esse movimento negro no Brasil, em termos culturais, surge com Nina Rodrigues (1862-1906). Os negros no Brasil são todos assimilados. Não vou discutir, aqui, como se deu esse processo de assimilação, mas o que importa é entender que, em termos culturais, o negro brasileiro não é africano. Pelo amor de Deus, é preciso entender isso.

Euler Belém — O avanço tecnológico, ao contrário do que se esperava, não afastou o homem de Deus. Mas do que nunca as religiões e seitas estão fortes. Por quê?

Na abertura daquele fantástico livro de Santo Agostinho, As Confissões, ele diz mais ou menos assim: “Senhor, tu me fizeste para ti, e o coração humano não encontrará repouso senão em ti”. O homem não é um animal aperfeiçoado, uma parcela de um jogo matemático-econômico — ele é pó, mas é pó com sopro divino. E o coração do homem é insaciável. O mundo de hoje não quer acreditar em Deus e acaba absolutizando o relativo, eternizando o temporal. O homem moderno enche o coração de novidades, de tecnologias, de ilusões, mas no fundo seu coração está vazio.

Euler Belém — O que o senhor acha da pílula anticoncepcional e da camisinha?

A pílula anticoncepcional foi recursos descoberto com objetivos terapêuticos, para mulheres que sofriam de dismenorréia. Depois é que passou a ser utilizada como anticoncepcional. E aí vieram os problemas, morais e físicos. A pílula abriu as portas para toda a degradação moral que estamos vendo. Já em relação à camisinha, para mim há algo de satânico, de diabólico na campanha que recomenda seu uso. Dizer que o uso da camisinha é o sexo seguro contra a Aids é um crime. Numa relação sexual, cerca de 10 por cento dos espermatozóides passam pelos poros da camisinha. E o vírus da Aids é muito menor que o espermatozóide, obviamente, passa muito mais. Nem precisa dizer o que acontece.

José Maria e Silva — Uma adolescente, virgem, é estuprada violentamente. Ao cabo de um mês após o estupro, quando ainda não conseguiu se recuperar do trauma sofrido com a violência, ela descobre que está grávida do estuprador. Se ela optar pelo aborto, será condenado ao inferno?

Se ela, antes adolescente e virgem, optar pelo aborto, já está condenada ao inferno nesta vida, pelos remorsos da consciência, avivados a cada choro, a cada sorriso ou a cada passinho de criança que poderia ser a sua, se não a tivesse matado. Não é sem razão que 85 por cento das mulheres internadas em casas de saúde mental nos Estados Unidos, país tão liberal, têm na sua história pelo menos um aborto. Falo de opção. Mas mesmo quando apenas cede à pressão, à chantagem ou ao desespero, a angústia não é menor. O problema é que o aborto é assassinato frio de um inocente, que está vivo e não tem nada a ver com o que fizeram. Não se pode obrigá-la a ficar com o filho, mas não é possível simplesmente convidá-la a ser assassina. O aborto é o crime mais frio, mais cruel, mais absurdo da nossa época.

Euler Belém — Os governos dizem que a escola pública está melhorando, mas ela ainda está aquém do que a sociedade espera. O que está faltando para a escola pública melhorar?

Muita coisa. O Relatório Coleman ao Senado Americano dizia que as escolas sem filosofia de vida apresentam não só mais graves problemas de disciplina e moralidade, mas também de menor aproveitamento escolar. Ele afirmava que esta era a razão da decadência da escola pública nos Estados Unidos. Não se pode pretender somente erudição, principalmente hoje, quando os bancos de dados são tão numerosos, ricos e acessíveis. Se a escola não forma para a vida, ela fracassa. A educação não acontece sem valores humanos apresentados. Se a própria escola, a partir do testemunho dos professores, não educa por tudo o que é e tem, é inútil e prejudicial. Não se educa por um aglomerado de conhecimentos científicos, mas por uma estruturação de valores humanos, que uma formação humanística pode dar. Supercérebros arriscam-se a se tornar supermonstros. O coração, a sensibilidade, a consciência, a vontade são áreas essenciais da personalidade humana. E disto, pouco se cogita ou se cogita mal. Valorizar os professores, sim, mas qualificando as verdadeiras vocações ao magistério, em cujas mãos se prepara, em grande parte, o futuro das novas gerações.

Euler Belém — O que está acontecendo com os jovens que, cada vez mais, procuram drogas, como cocaína, maconha, cigarro e álcool?

Os nossos jovens são, em geral, frutos e vítimas de uma sociedade consumista, materialista, imediatista, ávida de prazer, fabricada ou explorada pela mídia, bem ao gosto e a serviço dos que querem conduzir os homens como massa de manobra, inconsciente do seu destino pessoal. Quando faltam ideais de grandeza e auto-estima, já não se sabe o que fazer da vida. Aí vale tudo para se fugir de uma liberdade inútil e de uma responsabilidade absurda. Foge-se nas asas de um sonho químico, na loucura de um ritmo alucinante e alienante, na degradação do sexo sem dignidade e amor, ou até na superatividade estressante de quem não quer ter tempo nem para pensar. Precisamos de apóstolos capazes de atrair o jovem, pelo entusiasmo e pelo testemunho, a uma estrada de sacrifício e heroísmo. Porque os que ainda têm condições de atender a esse apelo — e não são poucos — poderão, à falta de autênticos valores, deixar-se seduzir pelo brilho efêmero de ideologias de morte e escravidão, inclusive pelo culto a satã, “homicida desde o início” e “pai da mentira”, como o chama Jesus. No fundo, todos sentem que só vale a pena viver quando se encontra uma causa pela qual valha a pena morrer. E a vitória sobre a morte, só Cristo no-la dá, pela sua morte e ressurreição. Sem ele, não há caminho, nem verdade, nem vida.

Euler Belém — O conflito da Globo com a Igreja Universal do Reino de Deus teve só componentes comerciais? O que o senhor acha da igreja dirigida por Edir Macedo, que se intitula bispo?

O conflito da Globo com a Igreja Universal é problema deles. A atitude infeliz e grosseira do “bispo” que agrediu a sensibilidade cristã do povo é mais profunda do que se esperava. Despertou até a consciência católica, não só para o amor a Nossa Senhora, mas também para o clima de real perseguição que estamos sofrendo em todos os campos. O fato de ter-se a Globo aproveitado isso para combater a rival, não a redime das iniqüidades que pratica diariamente contra os princípios cristãos. Nessa altura, são dignas uma da outra.

José Maria e Silva — Os evangélicos costumam dizer que Anápolis é uma cidade evangélica. Foi lá, por exemplo, que começou a Assembléia de Deus em Goiás, a maior denominação evangélica do Estado. O Senhor concorda que, em Anápolis, os evangélicos chegaram, de fato, a uma espécie de poder espiritual?

Não se pode esconder a influência das igrejas evangélicas em Anápolis. Mas os diversos horários de santas missas, tanto aos sábados e domingos, como em dias de semana, mostram uma larga participação católica. Não falo só dos momentos fortes da liturgia: Natal, Semana Santa, Páscoa, Pentecostes, Corpo de Deus. A Campanha da Fraternidade, os movimentos marianos e a recitação do terço em família, as manifestações pró-vida etc., confirmam ativa presença católica. Quando cheguei, a estatística oficial dava 83 por cento de católicos (sei que não poucos e são de nome apenas). Depois, creio que em 89, a estimativa era de 80 por cento. Cheguei a reclamar que tivessem tirado o item “religião” dos recenseamentos. Entretanto, nossas igrejas estão cheias, o atendimento é satisfatório, os movimentos, em geral, dinâmicos, a catequese extensa. Sempre há muito por fazer. Mas os números não nos preocupam. As vidas, as almas, sim.

Euler Belém — O senhor já teve simpatias pelo marxismo?

Não. Que me desculpem, mas para ler um livro como O Capital é preciso ter muito estômago. Tenho este livro numa edição espanhola. Marx foi satanista aos 17 anos, teve um filho com a empregada, deixou dois filhos morrerem de fome. Era um homem completamente irresponsável. E toda obra, de alguma maneira, é autobiográfica — ela assimila as fraquezas do autor.

José Maria e Silva — Não há dúvida que o pensamento de Marx é disforme e até confuso, assim como o de Max Weber, segundo alguns críticos. Mas Marx não tem nada de aproveitável? O senhor desconhece a importância dele como pensador?

Marx tem algumas coisas importantes. A Questão Judaica, por exemplo, é interessante.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia a participação dos leigos nos sacramentos católicos, inclusive manipulando a hóstia?

Acabo de traduzir um livrinho sobre o assunto. É de um autor italiano e se chama O Complô Contra os Sacerdotes e a Eucaristia. A gente tem impressão que houve um plano para fazer o povo perder a fé na eucaristia. A manipulação fácil da eucaristia quebra toda sua riqueza e a sensibilidade.

Luiz Carlos Bordoni — Como o senhor se posiciona em relação à pena de morte?

Não defendo a pena de morte, mas entendo que se um organismo chega a uma situação em que só cortando um dedo podre ele é capaz de se recuperar, então, esse dedo tem que ser cortado. O próprio Cristo prega isso na Bíblia, em relação aos homicidas vinhateiros. Se uma sociedade não tem o direito de eliminar um sujeito que está pondo em risco a sobrevivência dela, então, ela está indefesa perante a própria ruína.

Entrevista de Dom Manoel (IV parte)


Quarta parte da entrevista de dom Manoel, na qual trata do assunto política.

A Revolução de 64 foi um alívio”

Luiz Carlos Bordoni — Como o senhor avalia, hoje, o regime militar de 64?

Sobre o período imediatamente anterior ao regime militar, não se tem mais coragem de dizer nada. Mas 63 foi terrível. Vivi em Santos. Lá, apenas neste ano, tivemos 97 greves. Inclusive uma greve de coveiros, numa cidade com 40 graus à sombra. O mau cheiro dos cadáveres em decomposição era terrível. Meu pai era doqueiro no porto de Santos. Meu avô era estivador. Quem não aceitava aquela linha de greves e mais greves era simplesmente eliminado. O ministro do Trabalho da época, Valdemar Falcão, chegou a ir a Santos, apavorado com o número absurdo de acidentes de trabalho. Meu pai, por exemplo, foi atacado porque não quis coletar contribuições para o Partido Comunista entre os operários de sua turma. Ficou hospitalizado três meses por causa disso. A revolução de 64 foi uma revolta popular, porque ninguém mais suportava aquilo. Claro que, depois, foi usada. Todo poder corrompe. E o poder absoluto, corrompe absolutamente.

Euler Belém — O senhor participou daquelas marchas contra o governo João Goulart?

Participei, e de modo convicto. Mas tive uma grande decepção, logo no 1º de abril, quando foi eleito para vice-presidente o Alkmin. Todo mundo esqueceu qual foi o voto de um padre de São Paulo, no Congresso. Indignado, ele votou assim: “Para vice-presidente, Félix Galdeano”. As pessoas abafaram o riso, com medo. Félix Galdeano tinha sido o agenciador da famosa tramóia uísque a meio dólar. Nós nos sentimos traídos nessa hora, mas, antes, havia o perigo iminente de uma República sindicalista. Meu bairro era chamado de Kremlin, e Santos era a Moscou brasileira. Santos tinha 67 sindicatos. Quem levantava a voz contra essa situação era ameaçado de morte.

Euler Belém — João Goulart tinha algo a ver com isso? Ou foi um inocente útil?

Não tão inocente, mas era bastante útil. Felizmente, a maldade do homem é sempre maior do que sua inteligência, daí porque não existe crime perfeito. Jango foi uma vítima também, mas uma vítima consciente. Fazia parte da engrenagem.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia o governo de Fernando Henrique Cardoso?

Fernando Henrique Cardoso continua sendo um enigma para mim. Estou com muito medo. Fernando Henrique integrou o Cepal. Também participou do famoso Fórum de São Paulo, que uniu os líderes da América Latina sob a liderança de Fidel Castro. Acho que ele prestou um grande serviço ao estabilizar a moeda, mas não podemos sacrificar tudo à moeda, como se fosse um bezerro de ouro. O que está faltando, além de coragem, é força política para impor certas reformas. Outra coisa que chegou ao absurdo, no Brasil, é a impunidade.

Euler Belém — O senhor está falando como uma pessoa de esquerda?

Não. Estou falando como uma pessoa que tem consciência dos valores cristãos.

Euler Belém — O senhor não acha que a política em Anápolis anda um tanto esquentada?

Evidente, se tudo é de fato como aparece. Penso que ainda deva haver muito estouro até que a pipoca salte e encha a panela. Seria muito bom se todos se deixassem investir pelo espírito do bem comum.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ano Novo

AO DEUS IMORTAL, INVENCÍVEL E TODO-PODEROSO
A HONRA, A GLÓRIA E O LOUVOR
PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS.
AMÉM.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tempo Litúrgico

Cristo, Senhor do Tempo e da História


O tempo constitui uma experiência muito forte para o homem. Ele é fortemente marcado pelo tempo: nasce, cresce, se desenvolve sempre. Nunca consegue parar o tempo. Nasce como um bebê, engatinha, põe-se de pé e aprende a andar. Cresce, desenvolve-se na infância, logo chega à adolescência, torna-se adulto e, não demora, começam os sinais do tempo. Por fim, o homem volta à terra de onde saiu.

Durante sua vida, o homem experimenta diversas passagens. A primeira é a de gerações e de indivíduos por esta vida. Depois, a passagem dos dias e dos anos: o tempo solar. Também a passagem de ciclos da lua, marcando as semanas e os meses. Também pela alternância de dia e noite, trevas e luz, manhã e tarde.

Cristo é o Senhor do tempo: Ele nasceu e cresceu como nós. Chegou à idade adulta e morreu. Enfrentou as grandes angústias humanas, em especial a experiência da morte. Mas Ele a venceu, e promete que, com Ele, também a venceremos e penetraremos na eternidade, onde não há tempo.

A Liturgia se realiza segundo diversos tempos.

Medalha comemorativa do grande Jubileu do ano 2000
Tempo das gerações: é marcado principalmente pelos jubileus, quando a Igreja celebra ação de graças por um período de tempo determinado, normalmente a cada cinquenta anos. Também há a celebração dos centenários, dos milênios.

Tempo da vida: a Liturgia também se faz presente nos diversos momentos da vida, por meio da celebração dos Sacramentos, que celebram a vida, a maturidade, o amor conjugal, a morte.
Tempo solar: é a experiência de ano vivido no Ano Litúrgico. A Igreja relembra o mistério de Cristo, de sua Encarnação e Natividade até sua Ascensão, o dia de Pentecostes e a espera da vinda de Jesus. Relembrando os mistérios da vida do Salvador, distribui aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos méritos de Cristo, de sorte que os torna presente novamente, para que os fiéis entrem em contato com eles e sejam repletos da graça da salvação.

O tempo Litúrgico se organiza em torno de duas celebrações principais, o Natal e o Tríduo Pascal, o período de preparação (Advento e Quaresma) e a comemoração que lhes é posterior (Tempo do Natal e Tempo da Páscoa) e pelo Tempo Comum (que celebra a caminhada do povo rumo a Deus até a segunda volta do Salvador).

O tempo
Tempo lunar: na experiência das passagens do tempo lunar, as semanas, a Igreja celebra a Páscoa do Senhor no primeiro dia da semana, o Dia do Senhor, o Domingo. Neste dia, os cristãos se reúnem para ouvir a Palavra de Deus e celebrar a Eucaristia, se lembrarem da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor e darem graças a Deus que os salvou. O Domingo é o dia de festa primordial que deve ser sempre lembrado com grande respeito, como dia de alegria e descanso.

Tempo diário: a cada dia se faz uma experiência de passagem de trevas para luz e de luz para as trevas, de noite para o dia e de dia para a noite. Nesta experiência diária, a Liturgia propõe a celebração do mistério pascal da Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição de Cristo. Isso é expresso na Liturgia das Horas, pelo louvor Matutino, na hora chamada Laudes, onde se celebra a ressurreição de Jesus e a vida nova dos cristãos em Cristo; e na hora vespertina, chamada Vésperas, onde se recorda a doação de Cristo na Cruz, a Eucaristia, o sacerdócio e o dom da Igreja. Nas outras horas menores, recorda os passos da paixão de Jesus e os mistérios da Igreja.

Eucaristia: é celebrada no tempo, mas não está vinculada ao tempo, pois é sempre atualização de um fato histórico, mas presente na eternidade. Todas as experiências do tempo podem ser celebradas pela Eucaristia: os tempos das gerações, os tempos da vida, dos anos, das semanas e dos dias.

Fonte: Apostila de coroinhas, Rodrigo Demetrio